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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

De lírio amarelo e laranja

     Fechei os olhos e deixei o delírio invadir minha consciência aos poucos. Senti minha cabeça comprimir o meu cérebro ao limite de qualquer razão e depois se expandir rapidamente. Eu estava livre, solto em um universo de imagens recortadas.
     Aos poucos o Universo foi invadindo o meu ser, enquanto eu nadava em um mar de estrelas foscas, amarelas, rosas e azuis. Cadê aquela estrela vermelha que procuro todas as noites pelos céus da cidade?
     O delírio rasga meu peito.
     Olho para as minhas mãos e vejo sangue. O sangue de milhares de sonhos quebrados em manhãs de sol. Minhas mãos tremem, meus olhos queimam. Eu quero o ar puro de uma manhã de névoa. O que eu estou dizendo?
     Não falo a língua dos anjos. Caídos. Todos seguram a minha mão e me puxam. Seus dentes rasgam minha carne. Um cheiro de podre infesta o ar. Sou meu próprio demônio. Sou o meu próprio deus. Meus anjos são as escolhas. Caídas.
     Ah, o delírio! Custura com precisão uma alma qualquer em meu corpo biológico e me joga no centro de uma anã branca. Sinto meu corpo se dissolver em cada átomo solitário. Sinto que bilhares de pequenos eus, tão meus, espalham-se por entre mundos desconhecidos e se conectam a outros átomos, não-meus.
     Sou uma criança que chora. Um pai que vai embora. Uma mãe com câncer. Uma coração talhado em uma árvore por namorados. Sou um morador de rua olhando o céu na madrugada fria, com fome, de comida e de esperança. Esperança por comida. Sinto o seu amor pela liberdade.
     Sou uma estrela do mar regenerada.
     Sou um cavalo marinho com seu filho nas entranhas.
     Estou em delírio, em estado bizarro. Catatônico em frente a uma tela que recebem as palavras sem pensar. Inteligência artificial, delírio artificial. Como será o mundo com máquinas delirantes? Iguais a nós, acreditando que somos humanos.
     Mas não.
     Hoje sou apenas o delírio.
     Como um monge tibetano, sou o delírio.
     Feito de lírio, amarelo e laranja.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Segure o tempo. Volto já!

     Fechei os olhos e tentei tatear o tempo.
     Por alguns segundos, pensei ter conseguido agarrar um ou dois minutos.
     De fato, era apenas mosquitos.
     Fiquei ali, de olhos fechados, tateando o vazio. Tentando segurar o tempo, agarrá-lo sutilmente. Fiquei nessa dança de corpo estático e braços e mãos agitadas por horas. Em uma conta mental: 06 horas.
     Abri os olhos e tudo estava igual.
     Dormi.
     Acordei.
     Lavei o rosto e fechei os olhos novamente.
     Tempo, como segurá-lo?
     Foram dias. Sem conseguir um milésimo.
     Semanas.
     Meses.
     Anos.
     Em vão. Nada de agarrar o tempo. De segurá-lo. De tê-lo em minhas mão.
     Não acreditei que era impossível. O vento me sussurrou, pelos seus séculos de experiência. Mas minha imaturidade me fez surdo.
     Segurar o tempo é impossível.
     Mas não foi perder tempo.
     Quem perdeu tempo foi você, que ficou preso nesse texto.
     Até o fim.

domingo, 22 de setembro de 2013

O amor em frente a Igreja

     Estavam sentados na fonte em frente a Igreja. Faziam uma espécie de piquenique sob um teto cinza que prometia desabar em forma de chuva. Os carros passavam, as pessoas passavam, cachorros passavam. Os dois estáticos mantinham seus olhos estáticos um ao outro, sem pensar no tempo que empurrava todo o resto do mundo.
     Seguravam a mão de um jeito carinhoso, enquanto conversavam qualquer coisa que jogava em seus rostos sorrisos de felicidade. As vezes, não por vontade, talvez por fome, soltavam as mãos para pegar o alimento que repousava ao lado. A cada término de mordida, as mãos voltavam a se segurar.
     Segurança. Carinho. Afeto. Amor.
     Havia tudo ali, naquele quadro urbano, cotidiano e real.
     Eu apenas passei e sorri.
     Senti que o mundo poderia ser melhor e estava sendo naquele momento. Em frente a Igreja, sentados na fonte, se amavam de um jeito normal, nada de sublime, nada que os fizesse diferente. O que me chamou minha atenção foi a cena, de se amarem sem medo do mundo cair sobre suas cabeças.
     Não um mundo de chuva, mais de carros passando e buzinando sem precisarem buzinar. De pessoas passando e olhando como se o amor fosse vulgar, de cachorros que apenas passavam sem estranhar. Esse mundo que entram em Igrejas para crucificar os que ficam lá fora, sentados na fonte.
     Esse mundo que julga o amor de um rapaz de olhos castanhos que ama outro rapaz de olhos castanhos. Que se amam de um jeito normal, sentados numa fonte, no centro da cidade, em frente a Igreja.

sábado, 17 de agosto de 2013

Por aqui

    Por aqui eu escuto as músicas que não ouvia há muito tempo, por falta de tempo. Tenho tentado comprar um relógio para resolver isso, mas todos me dão apenas doze horas. É que não sei olhar as horas passar sem os ponteiros, que me apontam sempre a direção.
     Por aqui eu leio os livros que deixei escondidos na estante, por falta de espaço. Espaço que me sobra, em um sentimento gigante, chamado vazio existencial. É que não sei completá-lo com coisas mundanas, imundas e imperfeitas.
     Por aqui eu penso em todos aqueles que se foram sem passar por mim, por falta de uma terceira dimensão. Algo além de tudo isso, que parece sair da tela e tentar tocar minha testa larga, repleta de traços de uma vida. É que não sei usar óculos bicoloridos, ou vejo azul, ou vejo vermelho.
     Por aqui eu procuro um portal que se abra para um outro mundo, por falta do que fazer, penso na quarta dimensão. Uma dimensão extra que leve daqui essas palavras, esses espaços e essas pontuações. É que não sei mais o que vou escrever e como já utilizei muitos pontos finais, gastei todos os que tinha
     Por aqui eu deixo sem fim

terça-feira, 5 de junho de 2012

A morte

Afinal a morte é uma vírgula, reticências ou um simples ponto final?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Cancelado

     Existe uma constante inconstante no meu mundo.
    Uma perversidade anacrônica, moralista e ufológica. Gostaria que fosse irreal. Ou que fosse um sonho. Desses comprados em padarias, com açúcar e recheio de doce de leite. Gosto desse tipo de sonho. Especificamente desse sonho.
     Porque o sonho que tenho de olhos fechados me incomoda. Apenas porque sei que ele é real, que ele abusa da minha fragilidade onírica e da minha defesa que se esconde. Não tenho terror noturno. Meu terror é diário. Cotidiano. Com várias onomatopeias e pleonasmos.
     Esses sonhos metafóricos, que de olhos abertos não me incomodam tanto. Eu os explico pela ciência moderna, pós-moderna ou o período logo após este, que ainda não dei nome, mas nesse momento seria apocalíptico. Ruindo aos poucos em meio a confusão de pessoas centradas em si, em uma análise de umbigo, procurando auto-ajuda em outras pessoas. Vazias.
    Vazio. Sentimento complexo esse que sinto. Tão cheio e perturbado pelo vazio incomodo. Estou engordando, ficando redondo. Bebo minha cerveja, como um pedaço de carne e arroto minhas frustrações pelos dedos tocando suave o teclado. E minha vida vai se desenhando vazia na tela branca. Porque não escrevo em um caderno, apenas para mim?
      Para mim? Existe algo reservado para mim? Um vinho tinto seco. Uvas tannat, por favor! O vinho é mais introspectivo que a cerveja. Gostaria de ser mais introspectivo, mas me jogo na vida esperando que ela jogue algo melhor para mim. Meus projetos precisam sair. Eu preciso deles. Quando tudo sai do controle me sinto controlado.
      Corro atrás desse controle, de preservar o meu controle. Troco inúmeras vezes o canal dessa caixa chamado vida. Até bem pouco tempo, sintonizei no canal que me chamavam de "pai". Seria um bom pai, tenho certeza. Iria correr por ai, empinando pipa. Brincando de casinha. Fazendo cara feia e de nojo com as fraldas cagadas. O vomito que não acertou a fralda e sujou a camisa. A mãozinha segurando o meu dedo. O cheiro de talco.
      Era um bom canal. Tinha amor, tinha felicidade e tinha a esperança de um mundo melhor. Mas esqueci de pagar a conta, ou o canal não tinha audiência suficiente nos dias de hoje. Quem quer ficar sintonizado no canal "Pai" hoje em dia, não é mesmo? Mas eu quis, estava me acostumando e gostando da programação.
       Cancelado.
      Fico sentado olhando a tela ficando preta por algumas horas. Olho o babador repousando no colo. Os olhos cheios de lágrimas que não podem sair. Fortaleza. Chorar é para os fracos então? Desligo. Corro para o banheiro. Chuveiro. Olhos vermelhos não são de lágrimas, é do shampoo.
      O que a vida reserva para mim?
      Algo bom?
      Não sei. Nunca vou saber.
      Espero que o canal volte um dia. Tenho certeza que será bom.
      Por agora meu mundo está voltando a ser como era.
      Não procure sentido.
      Meu sentido foi cancelado.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Feliz Fim de...

Tenho algumas muitas reticências para usar nos meus títulos. Não que isso seja uma estratégia para que alguém possa ler esse texto, que de interessante não tem nada, pois ele foi construído em um momento sem sono, numa noite chuvosa e com olhos cansados. Se ao final ele parecer interessante, não foi culpa minha, tenha certeza que foi culpa sua, que se interessa por qualquer coisa.
E me falaram que após ter filho a minha percepção sobre a vida e a morte mudaria. Que a vida teria um novo sentido e a morte seria um desgosto. É fato que meu filho ainda nem nasceu. É fato que nem sei o sexo dele, chamo de filho por usar um português ultrapassado, machista e correto.
Então me questionaram sobre 2012. Eu que sempre tive a certeza que algo mudaria ao fim desse mítico ano, não que o mundo literalmente acabasse em ruínas. Mas que o mundo de alguma forma mudasse, para o bem. Para coisas positivas. Não para o positivismo ultrapassado, idealístico e incorreto. Mas para um mundo onde as pessoas fossem felizes.
Assim, não tenho medo que o mundo acabe em 2012 porque vou ter um filho. Se o mundo realmente for acabar, não vai ser o meu filho que vai impedir isso. Em dezembro, se as contas estiverem certas, ele terá apenas cinco meses e se eu, com vinte e sete não consegui evitar, o que ele poderia fazer.
Mas com essa pergunta vibrando na memória, fiquei pensando em quantas vezes o mundo acabou. E o meu mundo acaba todo dia, desde sempre. O meu mundo parasital, onde parasitava o corpo materno. O meu mundo de criança, quando ao ejacular, me falaram que agora eu era homem. Meu mundo de adolescente irresponsável, ouvindo rock e fumando. O mundo acadêmico enquanto acadêmico. Meu mundo de solteiro. O mundo em que eu não me preocupava tanto com o futuro.
Estou consciente que tenho tantos outros mundos para deixar acabar e que irão acabar, eu querendo ou não. Tantos mundos quanto minhas reticências. E ao final de 2012 tenho certeza que muita coisa acabou e que muita coisa se transformou. Ao final de 2012 estarei diferente.
Estarei pai.
Mas o certo é que, o mundo nunca acaba, o que termina é a vida das pessoas. Os átomos voltam para o Universo. Assim, sou imortal. Meu filho será imortal. E se um dia ele ter oportunidade de ler esse texto, vai ver que o pai dele sempre se considerou produto de tudo que é incerto, inconstante e irreal. Pois, sou meu próprio deus, meu próprio inferno e minha própria ansiedade. Sou porque não fui. Sou porque ainda não fui.
Sou porque em breve irei partir.
Em duas partes.
Desiguais.
Eu.
Meu filho.

sábado, 24 de dezembro de 2011

O Natal é tempo de...

Falaram por ai que Natal é tempo de paz, de sonhar e de ser feliz.
[paz] - Derivada do latim Pacem = Absentia Belli - Sem guerras.
[sonhar] - Derivada do latim somniare - Fantasiar
[feliz] - Derivada do latim felice - Favorecido pela sorte.


Agora tudo faz sentido.
No Natal devo sonhar, entrar em um mundo de fantasias, onde o ser humano não faz guerras, que não esteja envolvidos em disputas burras ou inteligentes. No natal devo fechar os olhos e acordar em um mundo que não existe, para quando eu acordar de olhos abertos para o mundo real eu seja favorecido pela sorte.
Isso eu só devo fazer no Natal.
Nos outros dias devo apenas fingir que nada acontece, que não posso fazer nada e que nada é culpa minha.
Por isso gosto do Natal.
É um dia só!
Um dia para ter paz, sonhar e ser feliz...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Não sei muito bem como...

Não sei muito bem como aconteceu.
Lembro que estava tendo um sentimento paterno. Pensei estar com saudades do meu cachorro. Essas coisas pós-modernas de considerarmos um animal como sendo parte da família. Meu cachorro era meu filho e espero não ser com o meu filho como sou com o meu cachorro.
As vezes jogo as latinhas de cerveja sobre a casinha dele, coisa que ele já se acostumou. As vezes puxo o pano dele só para vê-lo correr atrás de mim. Nem sempre dou água, nem sempre dou comida. Muitas vezes acho que ele pode ficar um dia sem comer, porque está com o peso muito elevado para o tamanho dele.
Mas não era sentimento paterno numa relação homem-animal.
Era relação pai-filho humano mesmo!
Mas não dei muita importância e a vida seguiu. Seguiu bem até o dia que minha namorada disse que estava meio estranha. Estranha entende-se por menstruação desregulada. Desregulada entende-se por menstruação atrasada que automaticamente nos remete a gravidez.
E gravidez é uma palavra estranha que me lembra gravidade. Não aquela que nos mantém presos ao chão. Gravidade no sentido de situação complicada em um contexto complicado.
Ela foi fazer o teste de farmácia.
Um risco.
NEGATIVO.
Mas a situação continuou em um contexto complicado.
Teste de laboratório.
Até 05 nada de gravidez. Acima de 100 tudo de gravidez.
55.
Brincadeira isso?
Liga para o médico. Recebe saudações e felicitações. Brinca-se no Facebook. Desmente. O médico atende. Diz que vai ser o triplo o número no próximo teste. Tem certeza que não está, mas já errou uma vez. Faz o teste, nem o dobro. Laboratório comemora.
POSITIVO.
Dúvida. Recebe saudações e felicitações mais uma vez. Presente da sócia. O médico pede novo teste. Agora sim, mais que o dobro.
400.
POSITIVO MESMO... SEM ERRO!
A vida muda, os planos mudam. A felicidade cresce.
Não sei muito bem como vai acontecer!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

No meu ombro

Jogado.
Olhando a vida passar.
Enquanto estou sentado na escada, olhando para o elevador.
Se eu pudesse agora dizer a todo mundo o que eu sinto, eu diria que sinto o frio de uma tarde chuvosa.
Sinto fome.
Por não ter devorado as utopias de outrora. Por não ter degustado a manhã de sol. Por não ter experimentado o sabor da alma cansada de tantas derrotas.
Juventude.
Morta. Morna. Moderna. Mortadela. Mandela.
Tudo que eu gostaria de ter agora.
Em dias como esses, como aqueles ou como qualquer outro.
E lá vai o perfume doce da limpeza.
Calçados molhados em calçadas escorregadias. Todo cuidado. Tudo plastificado.
O guarda-chuva cor de rosa.
Pensamento.
Preso no meu peito. Na dor de cada sonho de criança. Na felicidade mórbida de ver um assassino assassinado como se a vítima fosse outro que não eu mesmo.
Vitória. Vítima. Viagra. Verbo intransitivo indireto. Veneza.
Tudo que um dia irei usar.
Jogado na minha juventude deixando o pensamento acabar em três pontos iguais.
Reticências.
.
.
.
Quando repousares no meu ombro saberás!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Tudo sobre nada

Você me pediu para escrever sobre nada, mas não sobre qualquer nada. Sobre esse nada que acontece todos os dias e sempre com pessoas diferentes. O nada mitico, antropológico e ontogenético. Um nada que de tão nada, tem dias que é muito. Há dias que sufoca, que entristece, que te faz gritar de alegria.
E não tenho nada de novidades para te contar. No fim de semana fiquem sem fazer nada, até tentei, mas nada mesmo pouco conseguir fazer. Fiquei confuso, pois ao fazer nada, tudo estava acontecendo tão rápido, na velocidade da luz. E o dia foi se passando e nada de nada aconteceu.
A noite veio e fiquei olhando o nada do céu estrelado. Aquela coisa escura que contorna os pontos brilhantes. Já ouvi falar que é nada aquilo lá, mas nada mesmo não deve ser. Nada contra, muito menos nada a favor. Apenas não acenderam a luz naquele nada e nada adianta acender, pois nada é muita coisa nos olhos de quem nada entende.
E de nada entender um vazio gigante cresceu no meu peito e nada poderia completá-lo. Fui ao médico e ele disse que não era nada. Nada grave, nada com que se preocupar. Mas me preocupo com nada e fui perguntar ao especialista no assunto, afinal quem mais entende de nada é quem faz natação. Nada ridiculo pensar assim, pois nada adianta ser adulto se deixamos para trás aquela criança que nada se importava com o futuro da nação e não sabia que por isso estava construindo um futuro fabuloso onde nada pode ser mudado se todos nada quiserem.
O rapaz da natação apenas sorriu e disse que nada adianta falar sobre isso.
E quer saber? Nada tem sentido nesse texto, se leu é porque nada tem a fazer. Se não leu nada pode reclamar. O nada é importante, quer queira quer não. E você nada pode fazer a respeito disso!
Tenho dito!
O quê!?
Nada, nada!

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Texto solicitado para Naiara Dognini, apenas porque ela não queria nada de texto!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Nesse sistema financeiro de Amar

     E de repente me vi na fila de um banco privado. Muitas pessoas segurando de modo firme suas moedas. Era a fila de depósitos. Quis fumar um cigarro para baixar a ansiedade, mas lembrei que não podia. Quis tomar uma cerveja, mas lembrei que também não podia. Cortes necessários para cada vez mais sobrar moedas.
     Lá estava eu, com as mãos suadas e o corpo agitado. Estava com pressa e a fila se quer se movia. Deu tempo para preencher o cheque. Sim, eu estava decidida a depositar mais do que as minhas moedas. E o tempo do relógio que estava sobre a cabeça dele continuava se arrastando. Cada minuto parecia uma semana.
     Eu olhava os lindos olhos dele. O movimento das mãos contando suas próprias moedas. Um sorriso de menino e a barba por se fazer. Eu queria que ele estivesse me esperando. Esperando apenas a mim, para receber minhas moedas e meu cheque. Ele era o meu banco particular.
      E de repente me vi sozinha, sem filas. Não enxergava mais pessoas e continuava não querendo os cigarros e as cervejas. Eu só queria que meu coração parasse de acelerar, que minha barriga deixasse de ter aquele frio e que meu peito não apertasse tanto. Não tinha tempo para mais nada.
      Ele me olhou com ternura, mas não com paixão. Falou com a voz firme, sem aquela doçura de carinho. As mãos, quando vistas de perto, não brincava apenas com suas próprias moedas. Seriam moedas de quem? Seriam outras moedas? Estava confusa, caminhando sem direção, seguindo uma única direção. Os braços dele. E ele me chamou.
       - Próxima...
     Não me senti feliz. Eu era apenas a próxima e não a única. Olhei rapidamente a minha volta e todos estavam lá novamente. Atrás de mim, segurando suas moedas. Eu não era a única, era a próxima. Mas não vacilei, com passos de menina cheguei próximo dele.
Uma por uma fui entregando minhas moedas. Duas de respeito, uma de vaidade, três de ciúmes, dez de carinho, vinte de paixão, duas de verdade e... onde estavam minhas moedas de companheirismo?
      O coração acelerou ainda mais, querendo parar de cansaço. Minha respiração ofegante. Percebi que ele olhou por sobre meus ombros querendo enxergar a próxima. Mas essa era minha chance de ser a única. E lá estavam elas, dentro do meu bolso esquerdo do meu casaco. Só as descobri ali porque as batidas do coração as fizeram mexer. Como se meu coração dissesse:
       - Você tem muito a dar para companheirismo, menina!
     Peguei minhas trinta moedas de companheirismo e entreguei ao meu banco privado. Antes de sair coloquei em suas mãos o meu cheque especial. Estava destinado a ele, cruzado. Só ele poderia trocar. Naquele cheque a quantia justa: Muita esperança.
      Dei um sorriso para ele e sai. Não escutei ele chamando a próxima. Porque não houve próxima. O banco estava fechado naquele dia que insistia em não acabar. Mas se você pensa que depositei tudo o que eu tinha nesse alguém, você está enganado. Eu sei que com ele minhas moedas podem ter lucros gigantescos.
    Mas não se deposita todas as expectativas e sentimentos. Apenas o necessário para ser inesquecivel, para ser justo, para ser único. Se minhas moedas de companheirismo, respeito, vaidade, ciúmes, carinho, paixão e verdade não forem suficientes posso te dizer que sou minha Casa da Moeda, sou uma fábrica de moedas, assim, igual a você. Hoje estou aberta apenas para ele. Nesse gigantesco sistema financeiro de amar.

*****

Crônica a pedidos de @DeboraahSoares por ter encontrado A frase na carta.

sábado, 19 de junho de 2010

Dia do Eu Perdi

Hoje foi um dia especial e por ser especial eu decedi chamá-lo como o "Dia do Eu Perdi". Este é um dia particular do meu mundo, e não tem uma data específica. Sua única limitação é que ele nunca poderá existir no mesmo dia do "Dia do Eu Ganhei".
E o Dia do Eu Perdi já inicia uma noite anterior. Quando você tem algo planejado. Um planejamento real. Estar com você gosta. Rir a vontade. Sonhar com coisas boas. Ir trabalhar esperando o fim do dia chegar para tomar duas cervejas geladas e ir para casa tirar o cansaço do corpo. E ai está o erro. Não, o erro não está em tirar o cansaço do corpo. O erro está em acreditar que o dia posterior a esse planejamento, tudo sairá como se arquitetou.
E então eu acordei. Tomei café da manhã. Pão com leite condensado e nata. O café da manhã foi doce em um dia que eu gostaria de que fosse doce. E então eu saio para trabalhar. Ao chegar lá, minha primeira perda. Perdi em algum lugar a informação que dizia que na verdade eu deveria estar em outro lugar. Nada de tão ruim em perder isso, mas deveria ter voltado para cama.
A manhã, ensoladara, era uma boa manhã. Executava minhas tarefas enquanto eu perdia minha energia. Minhas mãos tremiam. Não estava mais acostumado a trabalhar no pesado. Havia perdido minha resistência. Mas o almoço estava chegando e eu já havia perdido alguns minutos dele. Fui voando para casa para lá chegar e saber que na verdade eu havia perdido meu lar.
A casa estava lá, minha família estava lá. Mas nem um nem outro estava satisfeito com a minha chegada. E foi assim que eu perdi minha casa. Colocado para fora sem entender o porque. Sem saber o que eu fiz de tão ruim para merecer não mais viver sobre o mesmo teto. Mas eu ainda tinha uma carta na manga, ou duas.
Abasteci o carro e comprei uns salgados e um refrigerante. Fui até o farol e lá fiquei degustando da minha perda. Só de pensar nos salgados meu estomago embrulha, mas a fome era tanta que eu devia comer aquilo. Assim, perdi a fome. Assim voltei para o trabalho.
Tudo exatamente como foi pela manhã. Ou quase tudo. Meu sorriso era forçado, meus olhos estavam mareados. Minhas mãos iam se sujando sem querer saber onde iria ser lavada. O fim do dia chegou. Todos os outros foram embora e eu sem ter para onde ir. Alias, eu tinha para onde ir, mas não poderia chegar sujo.
Fui até um posto de gasolina. Desses de beira de estrada. Disse que eu estava de viagem e se poderia pegar uma ducha rápida. Não havia perdido a sorte. Ainda. No meu carro sempre existe sabonete, toalha, escova de dentes e creme dental. Teria que ser um banho rápido. E assim foi.
E assim eu fui para a casa dela. Poderia dormir lá. Pelo menos essa noite. Cheguei de surpresa. Porque eu adoro surpreender. Já haviamos combinado durante a semana que dormiria lá. Então, a surpresa foi só a minha chegada em um horário não estabelecido. Fomos fazer um lanche. E eu, falando das minhas manias, na visão dela, deixei de ser homem. E eu, nas minhas brincadeiras, perdi mais uma vez. Lembra que eu não havia perdido a sorte ainda? Pois, a menos de trinta minutos acabei perdendo minha sorte também.
A moça saiu andando, sem dizer uma só palavra. Minhas brincadeiras machucam? Nem tanto. A vontade de não estar comigo deve ser maior? Nem tanto.
Então procurei uma lan house para escrever minha história. A história do meu "Dia do Eu Perdi". Perdi dois reais escrevendo. Perdi até o meu jeito de escrever. Essa história está um lixo. Esta pobre e sem qualquer nexo.
Afinal, no "Dia do Eu Perdi" eu perdi a paciência.
E vou dormir sob um teto de estrelas...

Obrigado a todos!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A trilogia de um Carnaval - Ato 3 - Columbina

     Estava radiante. Era apaixonada pelo carnaval e pelas marchinhas de antigamente. Assoviava sempre as mesmas melodias enquanto andava com seu rebolado. A fantasia estava na bolsa. No corpo a roupa de trabalho e a vontade de ver os blocos passarem na avenida e os corpos bailarem no salão.
     Deu mais uma conferida na fantasia. Uma saia branca abaloada. Um corpete preto, com fitas brancas trançadas nas costas. Luvas pretas. Meia arrastão preta e nos pés um tênis branco all star. Para completar uma longa piteira com losangos pretos, brancos e vermelhos. Estavam tudo ali, dentro da bolsa preta de couro.
     Foi caminhando até a pizzaria onde trabalhava. Era bem próxima de onde morava, o que facilitava e muito as coisas. Pegou o celular do bolso e mandou uma mensagem para Pierrot, ele seria uma boa companhia para o seu carnaval. Os olhos castanhos foram acompanhando os dedos enviando a mensagem. Como sempre, ele respondeu em seguida. Meia noite ele passaria para buscá-la.
     Era bom contar com a presença dele. Quando Pierrot estava por perto ela sentia um profundo clima de amor sincero e infantil. Era sublime pensar nele. Comeria uma pizza de sensação preta com morangos vermelhos para celebrar o pensamento. Esperava que o pizzaiolo atendesse o seu pedido.
     E a noite foi passando, oscilando entre o muito rápido e o muito lento. Mas passava ao seu ritmo. Algumas vezes olhava pela janela buscando encontrar a lua. Seria lua nova ou as nuvens escondiam a sua luz? Deu um sorriso com esse pensamento. Quantos mais pensavam nessas possibilidades da lua?
E então o telefone tocou mais uma vez. Mais um cliente. Pizza gigante. Acompanha refrigerante. Mais um telefonema. Outro mais. Então ele ligou.
      - Pizzaria da Cidade... boa noite!
     - Boa noite! Eu desejo uma pizza inteira de amor, com bordas recheadas de paixão. Para acompanhar quero Colombina. - Ela de uma risada abafada procurando não chamar a atenção dos clientes e da sua chefe.
      - Arle... quantas vezes já falei para não ligar para cá? E hoje vou sair com Pi...
      - Mas você sabe que o valor de Pi não é exato. Exato é o que sinto por você. Que tal um baile à dois em um motel da cidade, realizando nossas fantasias?
      - Eu tenho o teu número. Quando eu sair daqui eu te ligo.
      - Certo. Fico esperando!
      Arlequim é o tipo de homem que encantava ainda mais Colombina. Ele era divertido, tenha um olhar que lançava um aroma de sedução. As mãos dele sabiam acariciar o corpo. Quando ela estava com ele sentia um amor provocante, erótico e picante. Sentiu vontade de estar com ele em um motel.
      Perdida em pensamentos, olhou no relógio. Meia noite e cinco. Olhou o telefone celular. Uma chamada não atendida. Havia esquecido de Pierrot e se bem conhecia ele, devia estar fazendo um dramalhão. Provavelmente estava se sentindo abandonado. Resolveu ligar.
      - Desculpa! Vou me atrasar. - Fez uma voz suave e doce. Era o modo de pedir desculpas.
      - Quanto tempo?
      - Vinte minutos. Te dou um toque quando estiver pronta. Beijos... - Desligou sem dar tempo para ele reclamar. Pediu para a menina assumir o lugar dela, depois ela acertava com a chefe. - Manollo, faz uma pizza sedução pra mim? Estou atrasada.
       Ele deu um sinal de "ok".
      Colombina pegou a bolsa e correu para o banheiro. Estava toda atrapalhada. Maldito corpete que não fechava. Maldito cabelo que não ficava preso. Esqueceu o penteado e fez uma franja e um rabo de cavalo. Onde estava o celular? Onde estava o relógio? Os encontrou. Tinha apenas mais dez minutos. Colocou a meia arrastão e o tênis. Estava pronta. Morrendo da fome. Saiu do banheiro. Estava linda.
      - Manollo, minha pizza?
      - Esqueci... mas faço já!
      Ela ficou sentada apreensiva. As pernas tremiam ansiosas. Jogou sem querer o celular dentro da bolsa. Ficou acompanhando as horas se passarem rápidas no relógio.
      Vinte e cinco minutos. As pernas tremiam ainda mais ansiosas. E a pizza ficou pronta.
      Trinta minutos. Comia rápido, enquanto bebia ainda mais rápido um refrigerante.
      Trinta e cinco minutos. Correu para o banheiro. Escovou os dentes e passou um batom vermelhos nos lábios úmidos.
      Quarenta minutos. Estava caminhando em direção a calçada. Onde estava o celular para avisar, Pierrot?
      Quarenta e três minutos. Ele havia ligado. Deve ter chamado e ela sequer ouviu. Tentou ligar para ele, mas o telefone estava desligado. Ficou sem saber o que fazer. Pensou em Arlequim, mas havia ficado tensa e perdido a vontade de estar com ele. Olhou mais uma vez no relógio.
      - Quer saber? - perguntou ela para si - O mundo está repleto de Arlequim e Pierrot. Eles que encontrem sua própria Colombina. Eu cansei.
      E no outro dia, ela chegou cambaleando em casa, com a piteira na mão. O cigarro apagado. Entrou pelas portas do fundo, deixando o vento levar um pedaço de tecido em forma de coração que estava pregado com um canivete na porta da frente.
       Afinal de contas, quem se tornou Arlequim? Quem de derrubou as lágrimas?
       Colombina se tornou seu eterno carnaval, derrubando sonhos e corações dos homens que a aquela noite ela não beijou.
        Esse sempre foi o amor de Colombina.
        Carnaval!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A trilogia de um Carnaval: Ato 2 - Arlequim

     Do pulmão saiu uma fumaça cinza e logo em seguida uma tosse seca. Arlequim repousou o cigarro com aroma de canela no cinzeiro, que na verdade era uma lata de cerveja vazia. A mão esquerda segurava mais um retalho vermelho, que em breve a mão direita, com sua agulha e linha dourada, terminaria de fazer uma calça de losangos. Afinal de contas era carnaval.
     Lembrou-se dos carnavais anteriores. Dos dias em que participou de blocos de sujo com amigos que agora estão morando do outro lado do oceano. Lembrou-se do último ano. Dos olhos castanhos e da pele morena. Da cintura fina, das ancas largas. Dos seios firmes e da boca vermelha. Lembrou-se de Colombina, a garota que trabalhava de atendente em uma pizzaria da cidade.
     E sua calça estava pronta. Branca, vermelha e preta com as costuras aparentes em dourado. Por cima uma camiseta branca de mangas longas. Colocou uma máscara que deixava aparente apenas a boca. Seus lábios carnudos com dentes brancos e perfeitamente alinhados. O sorriso sarcástico estava ali. Pegou o telefone e discou.
     - Pizzaria da Cidade... boa noite!
     - Boa noite! Eu desejo uma pizza inteira de amor, com bordas recheadas de paixão. Para acompanhar quero Colombina. - Uma risada abafada surgiu no outro lado da linha.
     - Arle... quantas vezes já falei para não ligar para cá? E hoje vou sair com Pi...
     - Mas você sabe que o valor de Pi não é exato. Exato é o que sinto por você. Que tal um baile à dois em um motel da cidade, realizando nossas fantasias?
     - Eu tenho o teu número. Quando eu sair daqui eu te ligo.
     - Certo. Fico esperando!
     Mas Arlequim não era de esperar. Desceu as escadarias do pequeno prédio de aluguéis e foi andando pelas ruas da cidade. Ia fumando e cantando as pequenas marchinhas de carnaval. Foi costurando as ruas. Mexia com alguns foliões. As nuvens no céu não deixava a lua aparecer. Ou seria lua nova?
     Arlequim caminhava nas horas e se sem perceber se perdeu nelas. Quando chegou a pizzaria, as portas estavam fechadas. Mas como bom vivente que era, sabia que a uma quadra dali morava Colombina. E ele estava preparado.
     Quando chegou na porta da casa dela, tirou um canivete da calça e junto um coração de tecido. E na porta da casa de Colombina o jovem de calças de losango deixou o seu coração. Quando amanhecesse Colombina iria se tornar Arlequim.
      Mas quando é que o dia amanhece?

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Quem se importa com esse não? O calor...

     O suor escorre pelo meu corpo marcado pelo tempo. Tento pensar em algo que me refresca, mas no momento minha mente consegue se focar apenas na leve dor de cabeça. A tempora direita fica pressionando meu cérebro para dentro. Ou é o calor ou eu não sei...
     Talvez saiba. Por enquanto fico com a sensação de calor misturado com meu inferno sentimental. Não existem cervejas geladas. Não existem as amizades por perto. E quem eu quero está muito longe agora. Não vou revelar se é um "longe geográfico", se é um "longe sentimental". Não vou falar quem eu quero. E até agora já fiz uma quadra de "não". Em breve vem uma quina.
     Quem se importa com jogos de dominó? Quem se importa se eu estou bem ou mal? Quem se importa se o ventilador não está virado para mim? Quem aqui acredita que eu sou o responsável por tudo isso? Eu até fico sorrindo para a página que aos poucos vai deixando de ser branca para ter detalhes em preto. Mas quem se importa com jogo de xadrez?
      E esse fim de semana não foi nada bom.
      Pessoas querendo apenas sexo me irritam. Pessoas que somem me irritam. Pessoas que riem de mim por que meu time perdeu me irritam. Ficar molhado de suor me irrita. Pessoas que estão longe me irritam. Esse fim de semana está irritante.
      E o melhor de tudo, amanhã é segunda-feira e vou poder falar que meu fim de semana foi essa merda por conta do calor.
      E viva o calor!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Preguiça de estar triste

    Meus olhos se enchem de lágrimas.
    Não é tristeza. Toda vez que vem um bocejo meu olhos se inundam dessas partículas de água salgada. Chega a ser irônico. Não estou triste, estou com sono.
    Meu corpo está cansado pelos dias que se passaram. A correria do dia a dia me cansa. Não sigo um cotidiano repleto de mesmices, talvez por isso esteja cansado. Não sei exatamente a causa disso tudo. Minha rotina não é rotineira.
    Penso que ontem, um sábado que...
    Quer saber?
    Estou cansado de estar triste!

domingo, 17 de janeiro de 2010

... e avante!

     E ele não era filho de bruxos, muito menos filho de deuses. Há quem diga que seria estranho acreditar que ele era um vampiro ou um lobisomem juvenil. Não, ele também não era seguido por cavaleiros. E nunca participou de uma sociedade que precisaria destruir um anel.
     Ele era apenas um ser humano normal. Ou deveria ser um ser humano normal. O fato é que tinha alguns poderes, mas por ser isolado dos outros humanos ninguém sabia. Ninguém ao menos desconfiava a força que passava pelas veias daquele jovem garoto de dezesseis anos.
     E eram poderes fantásticos se bem lembro.
     Tudo começou quando nasceu. Parto normal. Seu primeiro desafio. Nascer. E nasceu bem, com saúde. Era o sétimo filho de um casal que morava no suburbio pobre de uma metrópole desorganizada. E teve que crescer na pobreza. Com um pai que bebia e batia na mãe. Com uma mãe que apanhava e dava grande parte do seu salário à igreja para conseguir uma vaga no coração do Criador.
     Foi nesse contexto que seus poderes apareceram. Criados um a um pela necessidade de crescer.

O primeiro poder: Sobreviver à fome.

    Pouco se tinha para comer. O dinheiro que o pai não bebia e a mãe não dava servia para pagar algumas contas e o restante servia para o alimento, que por conta destas questões era pouco. Muitas vezes o que sobrava para ele era o caldo de feijão. Quando cresceu um pouco, descobriu o lixão e a mesa ficou farta.

O segundo poder: Crescer

     Não cresceu muito. Mas conseguiu chegar a uma estatura considerável. Tinha os braços fortes das latas de água que buscava numa bica que ficava longe da sua humilde casa. Sem contar das brigas que tinha que vencer para continuar a crescer. Todos os dias apanhava muito, e quando desmaiava rápido não apanhava tanto. Era o seu principal golpe.

O terceiro poder: Imunidade ao frio.

    Quando completou doze anos resolveu sair de casa. O pai havia morrido de cirrose e a mãe estava tendo um caso com o pastor da igreja, que agora levava todo o dinheiro dela. O homem gordo de terno e gravata batia na mãe com a bíblia. Sentia raiva da situação por não poder vencer apenas desmaiando, então resolveu ir sem dizer adeus. E morou embaixo do viaduto e continuava indo ao lixão. Não iria nunca roubar para se alimentar. A unica roupa que tinha e o unico cobertor que tinha o fizeram ter esse terceiro poder. Nas noites de frio se aquecia com as folhas de jornal e foi neles que aprendeu a ler. Não sozinho, mas com a ajuda de um velho com quem dividia o viaduto.

O quarto poder: Sonhar.

     E ele era um sonhador. Sonhava em sair daquela situação. Achava impossível. Queria ter um trabalho digno, ter mulher, filhos e um carro. Qualquer um desses que passavam no viaduto. Queria uma mulher trabalhadora que acreditasse na vida. Ter dois filhos que ensinaria o poder de viver. O poder de crescer. O poder de não ter frio. E o poder mais importante, o poder de sonhar.

***

     E foi como em um sonho que tudo mudou. Um dia ao ser atropelado por um cidadão teve a certeza que tudo mudaria. Sentiu o sangue subir a garganta. Sorriu. Estava morrendo. Então aquilo ali era morrer. Estaria livre para nascer em outra condição.
     Mas não morreu. Com os poderes que tinha não seria fácil assim morrer. O mesmo homem que o atropelou era professor universitário e tinha alguns poderes. E o principal de todos era o de dar oportunidades. E após a alta do garoto, ofereceu abrigo, alimentação, bolsa de estudos. Em resumo, apenas uma oportunidade.
     E hoje há quem diga para este velho morador de viadutos que o garoto estuda em uma escola no alto de um edifício. E quem o escuta subindo pelo elevador sabe que ele sussurra:
     - Para o alto e avante!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Primeiro Dia

Hoje eu acordei com o barulho do despertador do celular. 7:35h. Não é uma boa hora para se levantar. Programei para despertar novamente as 8:15h. Essa sim é uma ótima hora para se levantar.
Sentei na cama e coloquei os pés quentes no chão frio. Cocei a cabeça e percebi que o pouco cabelo que me resta continua me restando. Esfreguei o rosto e senti a pálpebra do olho esquerdo tremer de modo involuntário (o que persiste em estar acontecendo neste momento).
Vou tirar o texto do passado e colocar no presente.
Encontro minha calça de moleton azul marinho. Olho no espelho e vejo que continuo com gordura localizada na minha barriga cheia de pêlos. Me sinto sensual. Suspiro e vou até o banheiro. Jogo água gelada no meu rosto e o pouco de sono que me restava se assusta e se esconde em algum pedaço do meu corpo (que mais cedo ou mais tarde irei encontrar).
Tomo meu café e solicito carona para minha mãe. Vou até o consultório. Meu pedaço de felicidade que carrego para minha vida. Decido que é hora de ir ver os planos e os valores nas academias de musculação. Decido que é hora de fazer exercícios. Decido que é hora de perder gordura da minha barriga cheia de pêlos.
A acadêmia é excelente. Os valores são salgados. Sei que algumas vezes eu já me perguntei, mas gostaria realmente de saber se tenho que me pagar de "homem gostoso" na frente do espelho quando estou fazendo os exercícios. É um ambiente hostil. Mas eu decido que preciso fazer exercícios. Ser mais um suado no meio de tantos suados. Posso pensar enquanto faço os exercícios ou isso atrapalha?
Vou até o escritório de advocacia do meu primo. Que também é meu tio. Que também é padrinho. Que também é meu amigo. Conversamos por alguns minutos e vamos até um supermercado. No caminho lembramos da nossa infância e adolescência. Os carrinhos de picolé. Os carros velhos. As músicas estranhas gravadas nas velhas fitas K7. Nos despedimos e sigo andando até minha casa.
E almoço. Vou sentir saudades desse alimento quando for hora de partir de casa e ter minha própria morada?
Então tiro esse texto do presente e o lanço para o futuro.
O sol irá aparecer a tarde. Vou caminhando até a clinica e faço mais alguns atendimentos. Se chover, voltarei para casa e conversarei com as pessoas no meu mundo virtual. Vou pensar nas garotas que estou interessado e vou chegar a conclusão que se eu mandar mensagens para elas 1:00h da manhã, talvez elas nunca irão se interessar por mim. Se o tempo se manter limpo, vou até a cidade vizinha. Vou me encontrar com uma amiga, vamos conversar e vamos rir, talvez caminhar pela praia.
Então voltarei para casa. Será noite. Vou tomar um banho. Colocar minha camiseta branca. Ajeitar o travesseiro e dormir. Talvez eu sonhe com algo, mas não sei se vou conseguir me lembrar. Se me lembrar contarei aqui amanhã.
Sonhar é sempre um bom assunto para os desavisados...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Um novo começo

Esse blog entra em uma nova fase.
Deixa de ter uma poesia romantica para ter uma poesia mais urbana, concreta e escura.
O mundo de David passará a ter relatos diários de eventos cotidianos.
Minha vida contada em um blog.
Nada original.
Apenas outros clichês.