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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Segure o tempo. Volto já!

     Fechei os olhos e tentei tatear o tempo.
     Por alguns segundos, pensei ter conseguido agarrar um ou dois minutos.
     De fato, era apenas mosquitos.
     Fiquei ali, de olhos fechados, tateando o vazio. Tentando segurar o tempo, agarrá-lo sutilmente. Fiquei nessa dança de corpo estático e braços e mãos agitadas por horas. Em uma conta mental: 06 horas.
     Abri os olhos e tudo estava igual.
     Dormi.
     Acordei.
     Lavei o rosto e fechei os olhos novamente.
     Tempo, como segurá-lo?
     Foram dias. Sem conseguir um milésimo.
     Semanas.
     Meses.
     Anos.
     Em vão. Nada de agarrar o tempo. De segurá-lo. De tê-lo em minhas mão.
     Não acreditei que era impossível. O vento me sussurrou, pelos seus séculos de experiência. Mas minha imaturidade me fez surdo.
     Segurar o tempo é impossível.
     Mas não foi perder tempo.
     Quem perdeu tempo foi você, que ficou preso nesse texto.
     Até o fim.

sábado, 24 de dezembro de 2011

O Natal é tempo de...

Falaram por ai que Natal é tempo de paz, de sonhar e de ser feliz.
[paz] - Derivada do latim Pacem = Absentia Belli - Sem guerras.
[sonhar] - Derivada do latim somniare - Fantasiar
[feliz] - Derivada do latim felice - Favorecido pela sorte.


Agora tudo faz sentido.
No Natal devo sonhar, entrar em um mundo de fantasias, onde o ser humano não faz guerras, que não esteja envolvidos em disputas burras ou inteligentes. No natal devo fechar os olhos e acordar em um mundo que não existe, para quando eu acordar de olhos abertos para o mundo real eu seja favorecido pela sorte.
Isso eu só devo fazer no Natal.
Nos outros dias devo apenas fingir que nada acontece, que não posso fazer nada e que nada é culpa minha.
Por isso gosto do Natal.
É um dia só!
Um dia para ter paz, sonhar e ser feliz...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Não sei muito bem como...

Não sei muito bem como aconteceu.
Lembro que estava tendo um sentimento paterno. Pensei estar com saudades do meu cachorro. Essas coisas pós-modernas de considerarmos um animal como sendo parte da família. Meu cachorro era meu filho e espero não ser com o meu filho como sou com o meu cachorro.
As vezes jogo as latinhas de cerveja sobre a casinha dele, coisa que ele já se acostumou. As vezes puxo o pano dele só para vê-lo correr atrás de mim. Nem sempre dou água, nem sempre dou comida. Muitas vezes acho que ele pode ficar um dia sem comer, porque está com o peso muito elevado para o tamanho dele.
Mas não era sentimento paterno numa relação homem-animal.
Era relação pai-filho humano mesmo!
Mas não dei muita importância e a vida seguiu. Seguiu bem até o dia que minha namorada disse que estava meio estranha. Estranha entende-se por menstruação desregulada. Desregulada entende-se por menstruação atrasada que automaticamente nos remete a gravidez.
E gravidez é uma palavra estranha que me lembra gravidade. Não aquela que nos mantém presos ao chão. Gravidade no sentido de situação complicada em um contexto complicado.
Ela foi fazer o teste de farmácia.
Um risco.
NEGATIVO.
Mas a situação continuou em um contexto complicado.
Teste de laboratório.
Até 05 nada de gravidez. Acima de 100 tudo de gravidez.
55.
Brincadeira isso?
Liga para o médico. Recebe saudações e felicitações. Brinca-se no Facebook. Desmente. O médico atende. Diz que vai ser o triplo o número no próximo teste. Tem certeza que não está, mas já errou uma vez. Faz o teste, nem o dobro. Laboratório comemora.
POSITIVO.
Dúvida. Recebe saudações e felicitações mais uma vez. Presente da sócia. O médico pede novo teste. Agora sim, mais que o dobro.
400.
POSITIVO MESMO... SEM ERRO!
A vida muda, os planos mudam. A felicidade cresce.
Não sei muito bem como vai acontecer!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Tudo sobre nada

Você me pediu para escrever sobre nada, mas não sobre qualquer nada. Sobre esse nada que acontece todos os dias e sempre com pessoas diferentes. O nada mitico, antropológico e ontogenético. Um nada que de tão nada, tem dias que é muito. Há dias que sufoca, que entristece, que te faz gritar de alegria.
E não tenho nada de novidades para te contar. No fim de semana fiquem sem fazer nada, até tentei, mas nada mesmo pouco conseguir fazer. Fiquei confuso, pois ao fazer nada, tudo estava acontecendo tão rápido, na velocidade da luz. E o dia foi se passando e nada de nada aconteceu.
A noite veio e fiquei olhando o nada do céu estrelado. Aquela coisa escura que contorna os pontos brilhantes. Já ouvi falar que é nada aquilo lá, mas nada mesmo não deve ser. Nada contra, muito menos nada a favor. Apenas não acenderam a luz naquele nada e nada adianta acender, pois nada é muita coisa nos olhos de quem nada entende.
E de nada entender um vazio gigante cresceu no meu peito e nada poderia completá-lo. Fui ao médico e ele disse que não era nada. Nada grave, nada com que se preocupar. Mas me preocupo com nada e fui perguntar ao especialista no assunto, afinal quem mais entende de nada é quem faz natação. Nada ridiculo pensar assim, pois nada adianta ser adulto se deixamos para trás aquela criança que nada se importava com o futuro da nação e não sabia que por isso estava construindo um futuro fabuloso onde nada pode ser mudado se todos nada quiserem.
O rapaz da natação apenas sorriu e disse que nada adianta falar sobre isso.
E quer saber? Nada tem sentido nesse texto, se leu é porque nada tem a fazer. Se não leu nada pode reclamar. O nada é importante, quer queira quer não. E você nada pode fazer a respeito disso!
Tenho dito!
O quê!?
Nada, nada!

____

Texto solicitado para Naiara Dognini, apenas porque ela não queria nada de texto!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Castelo de Cartas

     Coloquei a última peça que faltava no meu castelo de baralhos. Lá no topo o rei e dama de mãos dadas para não serem levadas pelo vento. Fiquei ali debruçado olhando a magnitude da minha criação. Cada carta dando sustentação para a próxima e está para a seguinte, e assim por diante. E lá no topo o rei e dama, de mãos dadas.
     Deixei minha arquitetura ali. Para que as pessoas pudessem ver o quão engenhoso pode ser o cérebro humano. Estava feliz, mas foi por um simples momento. Ao abrir a janela e pedir para todos virem observar uma das sete maravilhas do meu mundo deixei que o vento viesse e inflasse o meu quarto de ar. O mesmo vento que ao entrar acariciou os meus cabelos, foi o que destruiu sem qualquer piedade o meu castelo.
     O rei e a dama estavam longes um do outro, talvez embaixo dos escombros. Um aperto no peito. As lágrimas surgiram ainda mais salgadas. Porque as pessoas existem? Porque elas não se contetam em observar os próprios castelos? Porque ninguém vinha se desculpar por ter feito eu abrir a janela do meu quarto e solicitar que eu as chamasse? Meu rei e minha dama estavam jogadas pelo quarto, misturadas com a grande plebe de cartas.
     Fechei a janela e mandei o vento embora. Que ele nunca mais entrasse para me acariciar se logo em seguida fosse destruir meu castelo de cartas. E então eu reuni todas as cartas e comecei a alinhá-las. Uma a uma. Com todo amor que tinha por elas. Repousei o rei e a dama no meu colo deixando que olhassem o seu castelo ser reeguido por um grande engenheiro.
     Algum tempo depois estava pronto. E lá estavam novamente os dois de mãos dadas. Não iria chamar ninguém para ver. Levantei devagar e abri a porta e descobri que o vento dá a volta. E lá se foi meu castelo para o chão. Controlei o choro, eu tinha sete anos. Estava crescendo. E apenas entendi.
     Entendi que na vida muitos ventos irão colocar meu castelo no chão. Que muitos ventos irão afastar o rei e a dama. Mas foi só com o tempo que eu descobri que a culpa não é do vento, a culpa não é de qualquer pessoa. Castelos de cartas são feitos para serem derrubados e reerguidos.
     Só com o tempo eu entendi que a minha vida é o meu próprio castelo...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Grão de mostarda

     E de repente parei o meu carro. Mas a poeira da estrada de barro rapidamente me alcançou e seguiu o seu caminho. Mas eu tinha que parar e ver aquela imensa plantação que beirava a estrada estreita que levava a algum lugar que eu não sabia bem onde.
     Decidi pegar estradas assim depois que descobri que tenho um tumor na cabeça. Tenho três meses de vida. Na verdade agora tenho apenas um mês. Queria jogar tudo para o alto e ir viver a vida que nunca vivi, mas talvez o tumor tenha me feito pensar. O meu tumor... vou falar com sinceridade. O meu cancêr cerebral foi criado pelo meu racional que nunca me deixou sentir.
      Meu deus!
     Olha eu aqui na beirada de uma estrada estreita, com meu tênis coberto de poeira tirando a minha culpa e jogando para algo que... o que me basta é suspirar. Meu cancêr, criado por mim. Dentro de mim. Dentro da minha cabeça. Corroendo o que eu tinha de melhor, meu intelecto e o meu modo de explicar a vida. Se eu fosse um idiota sentimental, talvez... não! O coração não tem cancêr.
     Meu deus! Só me restam quatro semanas e eu aqui com minha lamentações. Nessa estrada estreita com essa imensa plantação de mostarda me fazendo convites para ver o mundo com outros olhos e eu aqui olhando mais uma vez com os olhos da razão.
     Nunca havia visto uma plantação tão linda assim. Um imenso mar amarelo que mexe com o toque leve do vento. Que não se cansa de mostrar sua beleza. Uma plantação de mostarda. Fico com vontade de rir. Pensando que minha imagem da mostarda até então era um tubo transparente repleto de uma pasta amarelada sobre a mesa de uma lanchonete.
     Eu e minha vida moderna.
     Agora, lá ao longe um homem de camisa xadrez me chama. E percebo que o tempo corre rápido. Quando comecei a escrever estava no passado e de repente me vejo no tempo presente, sendo chamado por um senhor desconhecido. Cabelos cinzas e sorriso de quem sabe viver ou sabe fingir muito bem.
     - Tarde, moço! Posso ajudar? - Disse ele com sua voz carregada de sotaque do interior.
     - Boa tarde! Me desculpa, mas só estava vendo como é linda sua plantação de mostarda. Gostaria de carregar ela para sempre. Embora meu "sempre" é tão breve!
     - Quanta amargura. Devia sorrir mais do que ficar apenas se sufocando. Pegue aqui essas sementinhas de mostarda e plante na sua casa. Se cuidar bem vão ser plantas tão belas quanto essas. Mas agora o senhor poderia ir andando que assusta a vizinhança. Sabe o que eles falam dos homens da cidade, não sabe?
     - Tudo bem! Agradeço as sementes.
     Dei meia volta. Entrei no carro e comecei a acelerar lentamente. E eu pensando que aquele senhor iria me dar uma lição de moral. Uma lição de vida. Falar da passagem bíblica que diz que quem tem a fé do tamanho de um grão de mostarda pode remover uma montanha. Então eu iria pensar.
     Pensaria algumas semanas e descobriria que não tinha fé na vida, na cura e nas possibilidades de crescer. Minha fé não chegava nem a um terço do grão de mostarda. Descobriria que minha montanha é o meu cancêr cerebral. E então como um toque de mágica passaria a ter fé. E um dia antes de morrer iria fazer meu último exame e veria que o tumor não existia mais. Que eu estava curado.
     Mas eu sou apenas um ser humano que espera que os outros me falem de lições de vida. Que espera encontrar um senhor de meia idade que me diga palavras de sabedoria. Mas o meu senhor apenas me deu grãos de mostarda que eu joguei no chão do carro e nunca floreceriam. E no final de quatro semanas eu vou morrer na paz de quem não teve fé suficiente e não enxergou os sinais que a vida dá.
      Eu não movi a montanha. Deixei que ela desabasse sobre mim...

domingo, 6 de setembro de 2009

O Tempo

O celular me desperta acordo medito levanto troco de roupa lavo o rosto amassado pelo travesseiro e desço para tomar um café que vai realmente me acordar o cheiro me dá um embrulho no estômago então tomo um copo de água antes pego uma xícara e repouso sobre a toalha suja de farelo dos outros que acordaram antes de mim o café aquece essa xícara e é amornada quando o leite se mistura tomo um gole amargo o pão adormecido com o doce de morango e nata cansam a musculatura do meu maxilar termino e subo para escovar os dentes pego a escola coloco o creme dental antes lembro que tenho que respirar.
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Respiro.
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Escovo os dentes como aprendi com o dentista quando ainda era criança mas não limpo a pia como deveria ter aprendido com minha mãe quando eu também era criança e penso que ela deveria ter me ameaçado com uma broca e com aquele barulho irritante então decido que estou atrasado e tenho que correr para meu trabalho e lá vejo que poderia ter ficado mais alguns minutos parado atrás daquele carro vermelho que insistia e estar no meio da rua como se só ele pagasse os impostos chegam os clientes e mais uma vez vem o pensamento de que devo respirar.
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Respiro.
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Fim de tarde tudo resolvido ou quase tudo encaminhado ou quase tudo ficou para trás e vou terminar amanhã que ainda vai ser um dia qualquer da semana que não me lembro exatamente qual chego em casa estaciono o carro na garagem apertada e saio exprimido batendo com a porta na parede e deixando-a a cada dia mais arranhada encontro frutas na fruteira sobre a mesa como alguma e subo troco de roupa e vou correr corro todos os dias sete quilômetros mas quando penso em correr aquele pensamento passar uma ultima vez na minha mente.
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Respiro.
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Corro até cansar e chego em casa tomo um banho arrumo as coisas para o dia seguinte arrumo também o despertador do celular e pego uma revista para ler enquanto finjo não ter qualquer culpa em estar com sono e não estar adquirindo qualquer conhecimento relacionado aquilo que está impresso nas páginas amassadas daquela revista então penso que chegou a hora de apagar a luz do quarto apago e jogo a revista em um canto sento e finjo que vou meditar e ao sentar lembro como será o meu dia e ao invés de respirar me vem outro pensamento.
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Suspiro.
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